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ESF POP RUA
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Experiência exitosa de redução de danos



Downtown Eastside (“DTE”) é uma comunidade densamente povoada e com alto índice de pobreza, uso de drogas e habitação inadequada. Ela fica localizada a poucos minutos – a pé- do centro de Vancouver e desde 1990 sofre com o uso abusivo de drogas injetáveis. O consequente compartilhamento de seringas entre os usuários caracterizou uma epidemia de HIV / AIDS e hepatite C, levando as autoridades canadeneses a declararem, em setembro de 1997, uma emergência de saúde pública no local.
Foi então que as autoridades de saúde reconheceram a necessidade soluções criativas para atender à população marginalizada – moradora de rua – e com complexas questões de saúde mental, física e emocional. Nesse cenário controverso começou, em 1991, o trabalho da PHS Community Services Society.
O PHS tem o objetivo de promover serviços e moradia; criar um senso de comunidade; fornecer asilo, defesa, serviços e habitação para aqueles que têm doenças mentais, deficiência física, HIV / AIDS, história de atividade criminosa, problemas de abuso de substânciase; além de promover, desenvolver, e manter habitação a preços acessíveis e apoiar os adultos que não tenham ou apresentam dificuldade de acesso a moradias adequadas. Esses propósitos foram difundidos em vários projetos e serviços.
O DTE concentra cerca de 4 mil pessoas vivendo em situação de rua ou moradia instável. Atualmente, a PHS conta com 18 hotéis que abrigam 1178 pessoas, as quais recebem uma bolsa do governo, que é revertida para o pagamento do aluguel dos quartos e manutenção dos serviços de abrigamento. Esse programa reduziu em mais de 85% o número de moradores de rua. O mais antigo do programa, o Stanley New Foutain Hotel, tem 87 abrigados, em sua maioria usuários de drogas injetávies que possuem problemas psiquiátricos graves. Há um número alto de overdoses no prédio.
Integrante do PHS, o Washington Needle Depot (WNP) surgiu logo após o fechamento de um programa de distribuição de seringas operado sob uma tenda na esquina da Main Street e Hastings Street. Em 1993, através desse programa, a PHS foi a primeira agência em Vancouver a operar “in loco” com um programa de distribuição fixa de seringas e agulhas, e a primeira organização em Brisith Columbia a receber financiamento dos programas de prevenção do HIV.
A distribuição ilimitada de seringas realizada pelo programa contribuiu para a diminuição da epidemia de HIV na cidade. Atualmente ele apresenta uma redução de 38% do risco de HIV entre na população de Vancouver.
Aliado a isso, existe um programa móvel de distribuição de insumos a domicílio, que também recolhe as seringas e o material usado para descarte; e esvazia, diariamente, as 28 caixas fixas espalhadas pelo DTE com as agulhas e material já utilizado; além de recolher as seringas e agulhas descartadas de maneira imprópria. O programa trabalha em 9 pontos do DTE específicos toda a manhã dando orientações à população na rua e distribuindo material.
Outros projetos criados pelo PHS Community Services Society para o tratamento e acompanhamento de usuário de drogas injetáveis são o “Heroin Perscrition Trial” e o “Low Theewshold Methadone Clinic”. Os programas, desde 1996, aumentaram o acesso ao tratamento pela metadona em 42,8%. O trabalho é baseado em uma visão integral do usuário de drogas e no vínculo pessoal. Assim, se a pessoa não aparece por alguns dias, algum profissional vai a casa dela para saber o que aconteceu e também verifica se a pessoa têm outros problemas de saúde, como HIV, Hepatite C, hipertensão, tuberculose, entre outros.

A organização mantem um local para injeção supervisionada de drogas e um programa de desintoxicação, conhecido como Insite que recebe a visita de mil pessoas diariamente para uso monitorado de drogas. O centro tem como foco a política de redução de danos por consumo de drogas psicoativas, principalmente heroína, cocaína e morfina. Graças ao tratamento já foram evitadas 1778 mortes por overdose, segundo pesquisa do Urban Health Research Institute.
No segundo andar do Insite, funciona o Onsite, local onde os usuários têm acesso a quartos e banheiros privados para se desintoxicar. A última etapa do tratamento é a recuperação e estabilização dos usuários para a conexão com os programas de tratamento da comunidade e de habitação. O acompanhamento contínuo e sigiloso dos participantes se garante mediante o uso de codinomes.
O Managed-Alcool Program (MAP), que começou em 2011 com o objetivo de reduzir danos causados pelo consumo excessivo de álcool, tem 12 integrantes e custa cerca de $350 por participante. Os beneficiários, que antes bebiam “Listerini” por conta do alto preço da bebida alcoólica no Canadá, ingerem doses supervisionadas de álcool de boa qualidade e têm acesso a tratamento de hipertensão e diabetes. Com isso, reduziu-se radicalmente a ida aos hospitais.
No PHS, o foco do trabalho passou das drogas ao indivíduo. A acessibilidade às drogas continua a mesma, mas conseguiu-se reduzir o número de pessoas encarceradas, a incidência de HIV, Hepatite C e as mortes por overdose. Assim, essa experiência nos convida a pensar em tirar o foco das drogas e redirecionar nossos esforços para o cuidado da população e, particularmente, dos usuários de drogas.
Fonte: CBDD - Comissão Brasileira Sobre Drogas e Democracia

terça-feira, 2 de julho de 2013

Redução de danos do Canadá atrai América Latina

Profissionais de saúde latino-americanos foram a Vancouver, no Canada, para um intercâmbio de experiências com a Portland Hotel Society (PHS). Criada há 20 anos, a instituição propõe o consumo supervisionado de drogas e o acolhimento de usuários como estratégias de redução de danos. A delegação brasileira foi composta por três representantes do Viva Rio: a coordenadora técnica Fabiane Minozzo, a psicóloga Maira Cabral e a enfermeira Lidiane Toledo.
A PHS funciona no Downtown Eastside, região conhecida como “o CEP mais pobre do Canadá”. Na década de 90, o bairro apresentava elevados níveis de violência, criminalidade e tráfico de drogas, principalmente heroína. O local tornou-se um reduto de usuários, que, marginalizados, acabavam vivendo em condições precárias de saúde. Foi quando Liz Evans, hoje uma das diretoras da instituição, resolveu começar o programa Needle Changing, através do qual promovia a troca diária de agulhas usadas por outras novas e descartáveis. O resultado foi uma queda brusca no compartilhamento dos insumos entre 1996 e 2003, de acordo com relatório do Centro de Excelência em HIV/AIDS de British Columbia.
Programa Needle Exchange realiza a troca de agulhas usadas por novas, evitando doenças contagiosas decorrentes dos compartilhamentos
Um dos principais compromissos da missão internacional foi a visita ao InSite, centro que aposta no uso assistido de entorpecentes como uma tática de redução de danos. A ideia não é impor a abstinência, mas dar os cuidados que o usuário precisa, como kits de seringas descartáveis e acompanhamento especializado. Quando chegam ao local, os usuários são direcionados a cabines individuais de consumo, que permanecem em constante monitoramento. “A leitura que a PHS tem é a de que a droga apazigua a dor. Os usuários se sentem amparados na InSite, assim como nos hotéis”, explica Fabiane.
Horta do centro comunitário da Portland Hotel Society (PHS), mantida pelos usuários de drogas cadastrados na entidade
O grupo também conheceu o centro comunitário da PHS, que dispõe de oficinas de reinserção social e programas de empregabilidade. Além disso, tiveram acesso aos “hotéis” para onde os usuários são levados após serem retirados das ruas. “Os abrigos não são gratuitos. São mantidos por uma espécie de ‘auxílio governamental’, que é suspenso a partir do momento em que o hóspede começa a trabalhar”, conta Maira.
Acomodações são mantidas pelo governo até que o usuário arrume um emprego
Para Lidiane, a experiência canadense impressiona pela maneira com que os profissionais enxergam o usuário de drogas. “Eles não são taxados de doentes. O consumo de entorpecentes é visto como um direito individual. Não há a imposição de modos de vida, mas são oferecidas outras possibilidades, como desintoxicação e reintegração social”, conta.  Entretanto, na avaliação de Maíra, essas alternativas poderiam ser mais enfatizadas, de modo a tentar enfraquecer a ligação do usuário com a droga. “Alguns deles tem casa, comida, um centro de desintoxicação e, mesmo assim, permanecem numa relação de quase exclusividade com o entorpecente”, lamenta.
Fonte: vivario.org.b

terça-feira, 12 de março de 2013

'O crack não é mais apenas uma droga de rua', afirma especialista da UFMG em dependência química

“O perfil do usuário atual é mais amplo”: Professora Amanda Reinaldo, especialista em dependência química e professora do Departamento de Enfermagem Aplicada da UFMG.
O crack é usado hoje por pessoas de todas as classes sociais e faixas etárias, atingindo, por exemplo, executivos que o consomem em casa, nos finais de semana, de forma relativamente controlada.
“O perfil do usuário atual é mais amplo”, comenta a professora Amanda Reinaldo, especialista em dependência química e professora do Departamento de Enfermagem Aplicada da UFMG.
Ela é a coordenadora do Ciclo de estudos em crack e outras drogas, que começa hoje na Escola de Enfermagem, e reunirá, em sete encontros periódicos que se estendem até julho, especialistas e profissionais de saúde que lidam com temas como o estigma sobre o usuário de drogas, a rede de saúde e de atendimento e a importância da participação da família na recuperação do dependente químico.
Em entrevista ao Portal UFMG, a professora Amanda Reinaldo analisa o comportamento não exclusivista do dependente de crack, que também consome outras drogas, o forte estigma social que o persegue e sugere estratégias para o tratamento dos viciados – e elas não passam, em sua avaliação, pela internação compulsória, adotada desde o início do ano em São Paulo.
“O ideal seria que as políticas públicas para essa área seguissem o princípio da redução de danos, que foca seus esforços na relação que o usuário tem com a droga”, propõe.

O ciclo de estudos que começa hoje tem o crack em lugar de destaque nos debates e até mesmo no nome do evento. Por que essa droga tem ganhado tanto espaço na agenda do governo e da sociedade?

O crack é a bola da vez. Se pensarmos epidemiologicamente, outras drogas como o álcool provocam mais impactos sociais e financeiros que o crack. Mas o crack choca a sociedade e chama a atenção, porque seus usuários estão na rua, eles saem de suas casas e vão para as cracolândias, perambulam pela cidade e isso incomoda a sociedade. O uso do crack levanta outras questões sociais como prostituição e a degradação humana. Já o usuário de álcool em geral tem sua família e sua casa e não incomoda tanto a sociedade, a não ser nos casos de acidentes de trânsito. O crack incomoda muito mais, socialmente falando.

O crack então é uma droga menos aceita socialmente?

Sim, por conta da degradação e outras questões sociais que ele gera. O crack está associado à violência e a comportamentos de risco. Como exemplo, lembro que têm aumentado os casos de crianças portadoras do HIV; as mães usuárias e contaminadas pelo vírus não fazem pré-natal, o que poderia impedir a criança de contrair o vírus.

A violência e outros problemas que aparecem associados ao uso do crack são os responsáveis pela exclusão social dos usuários dessa droga?

Não acho que usuário do crack seja excluído socialmente. Ele é temido socialmente, a partir do momento em que causa um incômodo, as pessoas não querem vê-lo perambulando pelas cidades. Ele está na cidade, anda e convive com as outras pessoas, mas incomoda. Ele não está excluído na periferia, circula pelos espaços. Em geral, as pessoas têm mais medo do usuário de crack do que de um alcoolista ao volante.

Por que o crack tem matado tantos usuários?

Não podemos falar que o crack é a droga mais devastadora para o organismo. O uso de qualquer droga deve ser visto como uma doença e não um desvio de caráter, e o crack não mata por si só, está associado a doenças secundárias, tais como tuberculose, aids, pneumonia, câncer de boca. O usuário morre devido às comorbidades associadas ao uso da droga. Alguns indícios trazidos por determinadas pesquisas mostram que os usuários de crack estão começando a autorregular o seu uso da droga.

Como isso acontece?

Há estudos em andamento que mostram que o crack está entrando em uma fase de uso mais “estabilizado”, por assim dizer. Quando a droga surgiu, houve um boom no seu uso, sendo que o ápice foi percebido pela população com o surgimento das cracolândias. Mas hoje já existem sinais apontando que as pessoas que usam crack, assim como os usuários de cocaína e álcool, estão começando a moderar o consumo. Há usuários de fim de semana que controlam o uso para trabalhar e ter uma vida normal.

Qual é o perfil desse novo usuário?

É muito difícil traçarmos esse perfil, porque ele é muito amplo. Há desde o executivo que faz uso aos fins de semana em casa, de forma regular, porém mais controlado, até as donas de casa e os aposentados. O crack não é mais uma droga da rua, seu perfil mudou e ele agora atinge todas as classes sociais. Além disso, os consumidores de crack são "poliusuários".
Isso significa que não uma há exclusividade no consumo...

É muito difícil vermos usuários de uma droga só. As pessoas experimentam de tudo, mas fazem uso maior daquela droga à qual se adaptam melhor, que gostam mais do efeito. Aquele caminho clássico indicando que a pessoa começava no cigarro, migrava para a maconha e depois para drogas consideradas “mais fortes” não é mais comum. O grande “barato” do crack é o efeito instantâneo, mais rápido. Mas o usuário de crack também consome maconha, álcool e cocaína.

Como o usuário de crack deveria ser tratado?

O usuário de drogas é uma pessoa doente e que precisa de tratamento. O ideal seria que as políticas públicas para essa área seguissem a mesma linha do álcool, por exemplo. É a política de redução de danos, que foca seus esforços na relação que o usuário tem com a droga. O objetivo final é sempre a abstinência, que a pessoa pare de vez de usar o crack. Mas se hoje a pessoa fuma 20 pedras por semana e consegue passar a fumar 10 ou 5, isso já é bom. Juntamente com essa redução de danos, deve haver ações como reinserção no mercado de trabalho e na família, para que a pessoa consiga parar de usar a droga e voltar a ter vida normal. O usuário de crack precisa ser amparado de todas as formas e reintegrado à sociedade.

A recuperação de usuários de crack é mais difícil que a de dependentes de outras drogas?

É uma recuperação bem árdua, tanto pela dependência física, quanto pela psíquica. O usuário de crack pensa que precisa da pedra para sobreviver. Ele não acha que a droga em si é ruim, porque, se assim fosse, ninguém usaria. O usuário se sente mais forte e corajoso, e isso dificulta o tratamento. O ex-usuário precisa desenvolver um autocontrole e tentar não se expor às situações de risco.

As internações compulsórias são uma solução para o problema do crack nas grandes cidades?

Na área da saúde há grupos contrários e favoráveis a essa medida. Os grupos a favor alegam que o dependente perde a capacidade de decidir o que é bom e o que é ruim, e, por isso, o Estado tem a obrigação de decidir por ele. Os grupos contrários encaram essa internação como violação de direitos e de autonomia. A internação compulsória não vai resolver o problema do crack, mas é preciso dar uma resposta à sociedade.

Como tem sido o resultado dessa medida nos locais onde foi adotada?

Até onde temos conhecimento, a maioria dos internados compulsórios retorna ao uso, porque não há o desejo do tratamento. Quantas vezes a internação compulsória já foi feita e não deu certo? Foi feita com os portadores de hanseníase, com os doentes mentais e com os tuberculosos. Todas essas pessoas incomodaram a sociedade e foram retiradas das ruas pelo Estado. Com os anos, nenhuma dessas internações deu resultado, porque você isola a pessoa e cria uma sociedade à parte, sem solucionar o problema. Ao tirar as pessoas da rua e interná-las à força, o crack não deixa de existir. E em algum momento elas vão sair da internação, pois ninguém pode ficar enclausurado para sempre. Logo vai aparecer outra droga e qual será o próximo passo? Vamos criar serviços de internação para cada nova droga? Esse é um assunto muito delicado e que desperta posições conflitantes. Alguns usuários questionam a internação compulsória e, ao sair, voltam a usar droga. Já outros agradecem pela internação depois que se recuperam.


Como o Estado participa dessas internações?

Nos locais em que ocorrem, elas são resultado de parceria do governo com a justiça. Nossa preocupação é que o Estado pode não dar conta de manter as internações compulsórias, porque isso é muito caro. A quem interessa a internação compulsória se o Estado não tem condição de internar todo mundo? As clínicas privadas vão se interessar e aí a pessoa deixa de ser um usuário de drogas, sabidamente doente, e se transforma em uma cifra. Quanto mais usuários, mais serviços privados e mais dinheiro o processo vai envolver. Já existe a intenção e esforço político para a causa, mas esse esforço tem que ser canalizado de forma inteligente.

Como a universidade tem participado dos debates sobre dependência química e uso do crack e outras drogas?

A UFMG difunde o conhecimento e cria políticas de multiplicadores desse conhecimento. A universidade ajuda a destruir mitos e a mostrar que este é um problema de saúde pública. Além disso, ela forma profissionais nas áreas da saúde que estão se preparando para enfrentar o problema. Muitos profissionais estão indo para o mercado de trabalho sem saber lidar com essa questão. Além disso, a UFMG tem feito avanços na pesquisa para gerar conhecimentos que ajudam a compreender melhor a dependência química.
(Luana Macieira)

FONTE; PORTAL UFMG

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Ministério institui Rede de Atenção a Pessoas com Doenças Crônicas não Transmissíveis

A rede vai fortalecer o cuidado integral e humanizar o atendimento, com reforço às ações de diagnóstico, tratamento, reabilitação e redução de danos.

Para estimular hábitos mais saudáveis e dar assistência qualificada às pessoas com Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), o Ministério da Saúde instituiu a Rede de Atenção à Saúde para esses usuários no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). A rede vai fortalecer o cuidado integral aos brasileiros e humanizar o atendimento, ampliando as estratégias de promoção da saúde e de prevenção com reforço às ações de diagnóstico, tratamento, reabilitação e redução de danos.
“A portaria representa um avanço no combate ao desenvolvimento de doenças crônicas, assegurando ao brasileiro atendimento qualificado e articulado entre todas as unidades de atenção à saúde”, destaca a coordenadora-geral de Áreas Técnicas do Departamento de Atenção Básica do Ministério da Saúde, Patricia Chueiri.
A rede vai funcionar com linhas de cuidados específicas voltadas à prevenção e tratamento das DCNT, principalmente o Diabetes, a Hipertensão Arterial, alguns tipos de cânceres, além de combater o excesso de peso e a obesidade, incluindo o tratamento cirúrgico para a obesidade grave. Os critérios para a implantação dessas linhas de cuidados serão definidos pelo Ministério da Saúde, em normativas específicas.
A porta de entrada prioritária da Rede será a Unidade Básica de Saúde (UBS), que vai acolher o usuário com uma equipe multidisciplinar formada por médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde. Em caso de um usuário com diabetes e sobrepeso que apresente sua glicemia controlada, por exemplo, ele poderá pegar os medicamentos na UBS e ser encaminhado a um pólo de Academia de Saúde para realizar atividades físicas. Se esse mesmo usuário apresentar complicações do diabetes, como nefropatia (lesão ou doença no rim), ele deverá ser encaminhado a um serviço especializado. A equipe de atenção básica fará o acompanhamento contínuo do usuário.
O Ministério da Saúde também vai promover parcerias para que um município possa prestar serviços aos usuários de outra cidade, completando a rede de atenção à saúde de pessoas com doenças crônicas.
A obesidade é um forte fator de risco para saúde e tem forte relação com altos níveis de gordura e açúcar no sangue, excesso de colesterol e casos de pré-diabetes. Pessoas obesas também têm mais chance de sofrer com doenças cardiovasculares, principalmente isquêmicas (infarto, trombose, embolia e arteriosclerose), além de problemas ortopédicos, asma, apneia do sono, alguns tipos de câncer, esteatose hepática (gordura no fígado) e distúrbios psicológicos.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas constituem um dos grandes desafios de saúde pública. No Brasil, 72% das causas de mortes e 60% de todo o ônus decorrem dessas doenças. No ano 2020, as DCNT serão responsáveis por 80% da carga de doença nos países em desenvolvimento. Atualmente, apenas 20% da população nesses países realizam o tratamento prescrito.
Vigilância– A última pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizada em 2011 pelo Ministério da Saúde, mostra que o excesso de peso e a obesidade têm crescido no País.De acordo com o estudo, a proporção de pessoas acima do peso no Brasil avançou de 42,7%, em 2006, para 48,5%, em 2011. No mesmo período, o percentual de obesos subiu de 11,4% para 15,8%.
Para frear a obesidade e o sedentarismo, que são fatores de risco importantes para doenças crônicas, e promover hábitos de vida mais saudáveis, o Ministério da Saúde prevê uma série de iniciativas no Plano de Ação para Enfrentamento das DCNT através de parcerias com o setor privado e outras pastas do governo. Lançado em agosto de 2011, o plano tem por meta reduzir em 2% ao ano a taxa de mortalidade prematura causada por DCNT até 2022.
O Programa Academia da Saúde é a principal estratégia para induzir o aumento da prática da atividade física na população. A iniciativa prevê a implantação de polos com infraestrutura, equipamentos e profissionais qualificados para a orientação de práticas corporais, atividades físicas e lazer. Atualmente, há mais de 2,6 mil polos habilitados para a construção em todo o país e outros 155 projetos pré-existentes que foram adaptados e custeados pelo Ministério da saúde.
Para melhorar a dieta dos brasileiros e qualidade de vida, o Ministério da Saúde firmou um acordo com a indústria alimentícia que prevê a redução gradual do teor de sódio em 16 categorias de alimentos. A previsão é de que, até 2020, estejam fora das prateleiras mais de 20 mil toneladas com o teor deste alimento. Se o consumo de sódio for reduzido para a recomendação diária da OMS (menos de cinco gramas por pessoa diariamente), os óbitos por AVC podem diminuir em 15%, e as mortes por infarto em 10%. Ainda estima-se que 1,5 milhão de brasileiros não precisaria de medicação para hipertensão e a expectativa de vida seria aumentada em até quatro anos.
Por Carlos Américo, da Agência Saúde – ASCOM/MS

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Redução de Danos: do trabalho de campo à clínica em CAPSad



Arnor Trindade
Bárbara Coelho Ferreira

O objetivo deste trabalho é discutir aspectos relacionados às estratégias de redução de danos em diferentes contextos e suas interfaces. Propomos relacionar as ações de redução de danos em sua forma mais tradicional, em território, com as estratégias utilizadas num serviço de atenção aos usuários de álcool e drogas, mais especificamente, em CAPS-ad.

Colocada em pauta no contexto das políticas públicas no final do século XX, sobretudo em resposta à epidemia da AIDS, as estratégias de redução de danos foram incorporadas às políticas públicas de saúde. O Ministério da Saúde ao lançar, em 2003, a sua política para o campo de álcool e outras drogas, colocou a redução de danos como a perspectiva fundamental de abordagem aos usuários. Derivada de uma preocupação específica, a transmissão do HIV, que permitiu a fundamentação e a estruturação das estratégias iniciais de RD, posteriormente a redução de danos é elencada como a principal forma, senão a única, de atenção aos usuários de drogas. De prática territorial exercida por redutores a estratégia de abordagem em serviços de saúde, a RD vem sofrendo modificações no seu percurso a medida que novas práticas são associadas a novos contextos.

Redução de danos em território, redução de danos à saúde, redução de danos sociais, redução de danos como perspectiva: o que significa dizer que um serviço de saúde atende na proposta da redução de danos? Quais as articulações possíveis entre uma clínica institucional e as práticas constituídas em abordagem de campo? Estas são algumas questões que com este trabalho pretendemos discutir.

Com o advento da epidemia de AIDS nos anos 80 e o alto índice de contaminação entre os usuários de drogas injetáveis no Brasil, foi preciso pensar em estratégias inéditas de prevenção para alcançar este público. Portanto, nos anos 90, as estratégias de Redução de Danos surgiram e se consolidaram como respostas pragmáticas à transmissão de HIV neste contexto. Foram vários os desafios enfrentados nesses anos iniciais de implementação das estratégias de RD. Com o passar do tempo, a AIDS deixou de ser a maior preocupação no que diz respeito aos usuários de drogas,  as drogas injetáveis perderam espaço no Brasil e a RD se configurou de outras formas, ampliando seu espectro de ação,  flexibilizando e criando novas práticas, estruturando-se conceitualmente, possibilitando novos caminhos na abordagem ao usuário de drogas.

De fato, a redução de danos foi deixando aos poucos de ser um conjunto de ações muito  específicas (distribuição e troca de insumos), para um público muito específico (usuários de drogas injetáveis) para assumir um papel preponderante no campo de atenção ao usuário de drogas. No Brasil, podemos considerar que o grande marco para este redirecionamento da Redução de Danos foi a publicação, em 2003, da Política de Atenção aos Usuários de Álcool e outras Drogas do Ministério da Saúde. Quando, enfim, o Brasil assume a responsabilidade no campo da saúde pelos problemas causados pelo uso abusivo de drogas a sua política surge formatada sob a égide da Redução de Danos. 

As leis, políticas e portarias posteriores no campo das drogas vão legitimar e referendar a Redução de Danos como estratégia para a abordagem dos problemas sociais e de saúde causados pelo uso de drogas. A lei 11 343/2006, por exemplo, vai dispor em seu artigo 19, que trata da prevenção: “o reconhecimento do “não-uso”, do “retardamento do uso” e da redução de riscos como resultados desejáveis das atividades de natureza preventiva, quando da definição dos objetivos a serem alcançados”. Mais à frente, no artigo 22, que dispõe sobre tratamento: “definição de projeto terapêutico individualizado, orientado para a inclusão social e para a redução de riscos e de danos sociais e à saúde;”  A Política Nacional Sobre Drogas, de 2005, vai estabelecer, como um dos seus objetivos: “Reduzir as conseqüências sociais e de saúde decorrentes do uso indevido de drogas para a pessoa, a comunidade e a sociedade” (SENAD, 2005).

Observa-se que esta Redução de Danos que se legitima não é mais apenas um conjunto de práticas destinadas à prevenção da transmissão das DST’s. O foco agora passa a ser todos os danos evitáveis do uso de drogas. Não é mais direcionada para um grupo específico de usuários de drogas, mas para todos os usuários de drogas, em suma, para toda a sociedade.

A partir destes pontos que fundamentam e estruturam a Redução de Danos, há uma ampliação das possibilidades de intervenção no campo da saúde. Assim, os serviços das redes de saúde em todos os níveis, devem fundamentar suas práticas assistenciais ao usuário de drogas dentro dos princípios da RD. As abordagens nos territórios de uso de drogas, as chamadas “cenas de uso”, por sua vez, ganham espaço no campo das Políticas Públicas, surgem novos  dispositivos para a atenção de usuários de álcool e outras drogas em situação de rua: os Consultórios de Rua. Compostos por equipe multidisciplinar (Assistente Social, Enfermeiro, Psicólogo e Redutor de Danos) este trabalho caracteriza-se por marcar seu encontro com os usuários de drogas nos locais de uso. E tem como princípios norteadores, a RD, a Reforma Psiquiátrica, a Intersetorialidade e os Direitos Humanos.

Em Belo Horizonte foram implantadas duas equipes de Consultório de Rua.  Uma delas teve início em meados de março de 2011, localizada na denominada “crackolândia” da cidade – a Pedreira Prado Lopes. A inauguração do Consultório de Rua nesta região se dá pelo alarde midiático que assombra e deixa marcas neste lugar: pedreira, pedras, crack. O número de usuários consumindo crack na cena pública é algo evidenciado neste território, mas encontramos usuários comprometidos com uso de outras drogas, como álcool, por exemplo. Os efeitos produzidos pela mídia intensificam o fardo do estigma que a chamada pátria dos crackeiros carrega.

Circulando entre ruas, becos e “bocas”, são encontradas vidas marcadas pela violação de direitos humanos e discriminação social, que ao se deparar com um dispositivo que se predispõe a levar cuidado, permitem uma abertura para uma atuação que não se restringe a distribuição de insumos de saúde, mas seguem a direção da lógica da RD. Com a chegada dos trabalhadores da saúde em campo, o vínculo com usuários, comunidade e com o território de uma maneira geral, vai sendo fortalecido a cada encontro: fazer laço é a orientação. A presença constante da equipe junto aos usuários que estão na rua para consumir drogas já faz surtir efeitos que são uma resposta à relação de vínculo estabelecida, como uma regra instituída pelos próprios usuários no momento da abordagem da equipe: “parar de fumar pra conversar”.

O veículo da equipe (uma van) se torna um espaço de referência para os usuários que demarca um momento de “trocar idéia” ou “dar um tempo”, ou seja, adiar o uso da droga na tentativa de retomar um lugar no laço social através de outras possibilidades. São ofertadas in loco atividades que priorizam a coletividade, no sentido de criar laços entre os usuários, quase sempre isolados um dos outros, com a proposta de realização de oficinas como: Festa Junina, conversação sobre sexualidade, bingo, roda de conversa sobre saúde e higiene bucal nomeada “Cuidando da Boca”, entre outras. A prioridade é criar um ambiente atrativo, com estratégias construídas junto aos usuários, introduzindo outros artifícios no circuito da relação sujeito-droga, que também é RD. Como nos adverte Rotelli: “O que fazer? É óbvio: ser mais sedutores que a droga, saber desencadear circuitos de ampliação não-químicos, concorrentes” (ROTELLI, 1991).

Assim, a cada “parada”, intervalo entre uma pedra e outra é possível escutar, intervir, ofertar, acompanhar e encaminhar, sendo este o propósito do Consultório de Rua apontado pelo Ministério da Saúde:

Oferecer ao segmento de usuários de substâncias psicoativas em situação de maior vulnerabilidade a disponibilização de recursos para os cuidados básicos de saúde, atendendo-os em seus locais de permanência e encaminhando as demandas mais complexas para a rede de saúde. Nesse sentido, uma das suas funções é atuar como uma ponte para a população que está à margem do sistema de saúde e possibilitar sua inserção na rede. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010, p. 13)

Os encaminhamentos para a Rede Intersetorial vão se efetivando na medida em que as demandas vão surgindo. Na singularidade de cada caso, as políticas no âmbito da Saúde, Assistência Social, Cultura, entre outras, vão sendo estabelecidos o acompanhamento integral aos usuários. Forma de tratamento que visa minimizar os danos à saúde e riscos sociais da vulnerabilidade das situações de vida, priorizando a efetivação da cidadania.

A RD permite uma mobilidade, servindo de referência e ponte entre o sujeito e o laço social do qual parece apartado. Criam-se as condições de trabalho favoráveis ao acolhimento desses sujeitos, construindo com eles esquemas de proteção e de auto-cuidado, fundamentais para o exercício da cidadania dos usuários de drogas. (CONTE, Marta, et al. 2004).


Como vemos, a experiência do Consultório de Rua reafirma a atuação da Redução de Danos em território, mas ao mesmo tempo amplia as suas possibilidades de intervenção, na medida em que não visa mais apenas um fim específico – a prevenção de HIV/AIDS e outras DST’s - mas permite a abordagem de diversas questões em saúde e também sociais vividas pelo público abordado, através de uma escuta sem estigmas, sem condenação, possibilitando a construção de caminhos singulares, exigindo a criação de tecnologias novas e diversas. Uma aposta no sujeito e no laço que com ele se possa estabelecer. Configura-se assim uma concepção ampla de redução de danos, que vai além de um conjunto de técnicas e intervenções definidas, mas toma o modo geral de uma perspectiva em atenção ao usuário de drogas:

Redução de danos é a flexibilidade no contrato com o usuário. Significa estabelecer vínculo, facilitar o acesso às informações e orientações, estimular a ida ao serviço de saúde (quando necessário), utilizando propostas diversificadas e construídas com cada usuário e sua rede social (CONTE, e cols – ET all- 2004)

É a partir desta concepção ampliada de Redução de Danos que é possível pensar uma rede de atenção que possa alcançar pessoas usuárias de diferentes drogas em seus variados contextos, permitindo a articulação em diferentes níveis de cuidado, seja na atenção primária, no Consultório de Rua, no CAPSad, no Centro de Convivência  ou no Hospital Geral .

Num contexto de tratamento, ou pelo menos na fase mais crítica do tratamento que o CAPS-ad se propõe a realizar, a atuação a partir de uma perspectiva de redução de danos coloca outras questões. Ali, a pessoa não está mais em seu território. Ela chega, em geral, formulando uma demanda que é parar de usar determinada droga. Muitas vezes esta demanda, assim colocada, é expressa ou reforçada pela família. O acolhimento realizado pelo profissional do CAPS já deve ser pautado pela postura de um redutor de danos, alguém que não vai julgar, não vai exigir, mas que está disposto a escutar, desconstruir e construir junto. Este atendimento inicial é muito importante na construção de laços transferenciais que vão pautar o tratamento a partir dali.

Uma vez inserido no CAPSad, novos desafios são colocados: ali o indivíduo não pode ter o mesmo comportamento que teria nos contextos de uso, como na rua ou em casa, por exemplo. Em geral, as drogas de uso permitido num CAPS-ad são apenas o tabaco e as prescritas pelo médico, além de algum café. Dentro da instituição, com suas regras, seus horários, seu modo de funcionamento, seu compromisso institucional e ético, a redução de danos, para além de uma postura acolhedora, se configura em novas práticas, novas intervenções, também de caráter preventivo, uma vez que o próprio tratamento pode ser considerado uma prevenção terciária.

O público presente num CAPS-ad é diverso: vêm de diferentes regiões da cidade, têm diferentes etnias, orientações sexuais diversas, comorbidades clínicas, orgânicas e mentais, diferentes níveis sócio-econômicos, fazem uso de drogas diversas, em variados contextos. Apresentam, por isto mesmo, demandas distintas e precisam ser escutados e abordados em suas singularidades.  Embora a primeira demanda expressa seja, como foi dito, cessar o uso de drogas, verifica-se a posteriori que esta demanda muitas vezes é formulada pelo usuário para atender uma expectativa da família ou a que ele imagina ser dos profissionais do serviço. De fato, aos poucos as demandas vão se clarificando: Um quer parar de usar todas as drogas, outro quer cessar o uso apenas de uma droga específica, outro quer apenas se recuperar do uso que faz durante a noite, dar um tempo, reduzir o uso, estabelecer melhor relação com a família, ser cuidado durante uma crise de intoxicação ou de abstinência, se livrar de uma depressão, etc. Diante dessas demandas expressas ou ocultas, os profissionais dos CAPSad podem lançar mão de algumas técnicas e estratégias que estão dentro das possibilidades de redução de danos. Citaremos algumas das mais comuns:

Adiamento do uso: sabiamente, diferente do que prometem as Comunidades Terapêuticas, os grupos de mútua ajuda, como os AA, ensinam aos seus participantes a ficarem sem usar a droga “só por hoje”. Eles utilizam a estratégia do adiamento que está no escopo da RD, embora o façam a partir de outro princípio. Num CAPS, o que é possível com muitos usuários é um adiamento do uso. Este adiamento pode ser de algumas horas, de alguns dias, meses ou anos. Neste intervalo entre um uso e outro é possível fazer alguma ação clínica que permita, de algum modo, o sujeito re-significar o seu uso, compreender-se melhor e estabelecer estratégias de cuidado.

Terapias de substituição e tratamento da síndrome de abstinência: As terapias de substituição e tratamento da abstinência estão entre as ações mais antigas de RD. Na década de 20, muito antes da epidemia de AIDS, médicos no Reino Unido já prescreviam heroína aos pacientes para evitar a síndrome de abstinência. Nos CAPSad é comum, diante da SAA, a prescrição de benzodiazepínicos e tiamina para evitar agravos maiores. Esta prescrição independe do desejo ou não do paciente querer parar de usar etílicos, mas constitui uma medida de cuidado e prevenção eficientes num momento de interrupção do uso. Em alguns CAPS são atendidos pacientes dependentes de heroína e outros opióides, drogas que podem provocar intensa síndrome de abstinência. Constitui parte do tratamento a redução de danos relacionada a este período a utilização de opióides menos danosos como a metadona.

Abstinência de uma das drogas de uso: Muitas vezes o paciente que chega a um CAPSad faz uso de diversas drogas, mas traz como problema o uso de apenas uma delas. Os profissionais que o atendem devem estar atentos à demanda do usuário. Às vezes ele é um fumante e alcoolista, mas traz, num primeiro momento, o uso de álcool como problema.  Outro pode ser usuário de crack e maconha, mas não quer parar de usar esta última e então o tratamento deve ser focado  no uso do crack.

Tratamento das comorbidades: É comum aparecerem comorbidades associadas ao uso de drogas. Algumas comorbidades são provocadas pelo uso e outras antecedentes ao mesmo. No primeiro caso, podemos citar as doenças provocadas pelo etilismo como agravos no sistema digestivo, nervoso, circulatório, que precisam ser consideradas e tratadas. No segundo caso, as depressões ou ansiedades que emergem após um período sem o uso das drogas. Também precisam ser investigadas e tratadas, pois em muitos casos elas estão na origem do uso.

Uso controlado e redução de uso: Muitos usuários, que não querem parar de usar sua droga de escolha, conseguem, com acompanhamento adequado fazer um uso da droga com maior controle, escolhendo melhor o momento, a quantidade e o ambiente de uso. A idéia de que não é possível ao dependente controle do uso não se confirma na clínica. São conhecidos casos em que o paciente em acompanhamento reduz significativamente o seu uso, o que lhe permite se colocar de outra forma na sociedade e exercer papéis e funções das quais antes não era capaz.

Acompanhamento das famílias: Muitos dos problemas trazidos pelos usuários em tratamento dizem respeito à dinâmica familiar. Na sua história com o uso de drogas vários conflitos foram ali estabelecidos. Uma abordagem junto à família, de forma que a mesma se sinta ouvida e possa desfazer seus fantasmas e medos em relação ao dependente, possibilita uma relação menos dolorida e menos conflituosa entre os seus membros.

Algumas questões, no entanto, se colocam para o CAPS-ad: Ao mesmo tempo em que se estrutura a partir de uma perspectiva de redução de danos, ele é cobrado pela sociedade, ou por alguns segmentos dela, em função dos resultados produzidos em termos de abstinência. É comum ouvirmos da imprensa, quando em visita aos CAPS, a seguinte pergunta: qual a porcentagem de recuperação? De fato esta pergunta mal formulada causa embaraço: seja pela dificuldade de definir recuperação no campo da drogadicção, seja pela dificuldade que os serviços ainda têm na produção de dados relativos aos resultados do tratamento.

Por outro lado temos observado que muitos profissionais que trabalham em CAPS-ad ainda não assimilaram muito bem o que seja trabalhar na perspectiva da redução de danos. Para muitos a redução de danos é aplicada em apenas alguns pacientes, normalmente aqueles pacientes que “não têm jeito”.  É comum ainda ver-se a discussão da admissão, da alta e do encaminhamento pautados pela abstinência ou não de drogas. Assim, se o indivíduo já está abstinente há algum tempo, por exemplo, já está em situação de alta. Estas distorções se devem, em parte, a uma má compreensão da redução de danos e suas possibilidades. De outra parte, ela convoca a uma discussão sobre a estruturação da rede.

Para além do CAPSad,  é preciso pensar a redução de danos em vários pontos da rede. A abordagem ao uso de drogas, nesta perspectiva, vai muito além de intervenções ou tratamento do dependente. Ela pode orientar práticas preventivas na atenção primária, nos dispositivos de saúde mental e em outros ambientes da saúde. Acreditamos que  a interlocução entre os diferentes dispositivos de atenção seja imprescindível, e neste contexto dispositivos como o CERSAMad e os Consultórios de Rua devem ser os protagonistas desta ação

Finalmente não podemos deixar de considerar a forma que o uso de drogas atravessa o imaginário social. A figura do usuário associado ao mal, ao demoníaco, à marginalidade e à fraqueza de caráter perpassa a clínica, e os profissionais não são inócuos a uma perspectiva moralista que está presente em toda a sociedade. No entanto, apesar das dificuldades existentes, a redução de danos vem se afirmando como a perspectiva mais humana, mais avançada, mais justa e mais promissora na abordagem de um fenômeno tão complexo que atinge, direta ou indiretamente, a todos nós.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pesquisador avalia redução de danos em usuários de drogas


Para diminuir o impacto do uso de drogas, países como Austrália, Espanha, EUA e Brasil têm implementado o programa de redução de danos desde a década de 1980. A estratégia controla possíveis conseqüências do consumo de psicoativos (lícitos ou ilícitos) sem, necessariamente, interromper o uso. A troca de seringas faz parte das ações do programa e está sendo pesquisada pelo Centro de Informação Científica e Tecnológica (Cict), uma unidade da Fiocruz. O tema também foi destaque de uma edição especial dos Cadernos de Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), outra unidade da Fundação.
Segundo a pesquisa do Cict, a substituição das seringas usadas é desenvolvida no Brasil para evitar o aumento do HIV e da Aids entre os usuários de drogas injetáveis (UDI). De acordo com o coordenador do estudo, o pesquisador Francisco Inácio Bastos, a medida diminui a expansão da epidemia, que se torna mais comum entre os UDI's, uma vez que eles tendem a ter menos cuidados com a saúde. "O ideal seria o padrão um por um. Cada seringa usada seria trocada por uma nova, mas na realidade, a distribuição é feita de forma mais eficaz que a coleta. O que acaba sendo ruim, pois não há um equilíbrio", alerta Bastos.
 O pesquisador Francisco Inácio Bastos (Foto: Ana Limp)
O pesquisador Francisco Inácio Bastos (Foto: Ana Limp)
O programa de redução de danos no Brasil começou a ser implementado na metade dos anos 80. A primeira tentativa com a troca de seringas foi em Santos (SP), em 1989. Porém, somente seis anos depois (1995), o Ministério da Saúde conseguiu a autorização do poder judiciário para implementar o programa. Na época, a polêmica se baseava na acusação de que a estratégia de redução de danos estimulava o uso de drogas.
No estudo, Bastos e sua equipe fazem um levantamento de pesquisas feitas nos EUA e na Europa, comprovando que 20 anos depois de implantado, o programa de redução de danos não aumenta o consumo de drogas. "Mas até hoje existem juristas que vêem esses programas como incentivadores do consumo", reconhece o pesquisador. A seguir, uma entrevista com Bastos.
Agência Fiocruz de Notícias (AFN): Que iniciativas o país usa para a redução de danos?
Francisco Inácio Bastos:
 Mais de 20 anos depois de as primeiras propostas de redução de danos terem sido lançadas, a idéia é sair do campo ideológico e trabalhar com as evidências científicas. Nos Estados Unidos, a maioria das avaliações dos programas de redução de danos mostra resultados positivos dessas iniciativas. Mesmo assim, há um veto federal para o financiamento desses projetos.
AFN: Qual o principal entrave para o desenvolvimento das políticas de redução de danos?
Bastos:
 A questão moral e também a questão jurídica. Todas as avaliações realizadas nos programas de troca de seringa mostram que os programas não aumentam o uso de drogas nas comunidades onde são implementados, mas até hoje existem juristas que vêem esses programas como incentivadores do consumo.
AFN: Como está a situação no Brasil para ações de substituição de drogas?
Bastos:
 No Brasil, isso não existe porque o uso de drogas mais pesadas, como a heroína, não é comum. Essa estratégia de usar uma substância para a manutenção de uma pessoa sem usar droga ilícita é bem sucedida no mundo inteiro. Apesar disso, a Rússia proíbe a realização de programas com metadona, que substitui a heroína. A metadona faz parte da lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial de Saúde (OMS). Por isso, é preciso reforçar as pesquisas de acordo com os achados científicos e deixar de lado as questões emocionais.
AFN: O Programa Nacional de DST/Aids garante que todos os pacientes tenham acesso universal ao tratamento da doença. Como funciona na prática?
Bastos:
 Esta questão é uma polêmica que não deveria ocorrer, mas existem profissionais de saúde que acabam excluindo os usuários de droga do tratamento, por acreditar que eles possuem uma vida mais irregular, desorganizada. Isso é discriminação. Privar uma pessoa do tratamento é um erro, mas infelizmente, ocorre no mundo todo.
AFN: De onde vêm os recursos para o desenvolvimento das ações de redução de danos?
Bastos:
 Inicialmente, os investimentos eram feitos pelo Ministério da Saúde, pelo Banco Mundial e pela ONU. No entanto, houve uma descentralização dos recursos e os estados e municípios são responsáveis pelo dinheiro. Cada programa custa em média R$ 50 mil, variando de acordo com a cobertura e a região.
AFN: Como é feita troca de seringas?
Bastos: 
O ideal seria o padrão um por um. Cada seringa usada seria trocada por uma nova, mas na realidade, a distribuição é feita de forma mais eficaz que a coleta. O que acaba sendo ruim, pois não há um equilíbrio.
AFN: No Brasil, pelo SUS, como se consegue chegar até o usuário de drogas?
Bastos:
 Sempre por meio de organizações não-governamentais. Não ocorre dentro das unidades do SUS, apesar de hoje haver programas de redução de danos integrados ao PSF (Programa de Saúde da Família).

FONTE: Agência Fiocruz de Notícias.


domingo, 21 de outubro de 2012

CUIDADO: REDUÇÃO DE DANOS




Nem sempre é possível alcançar, de imediato, a abstinência do uso da droga e muitas pessoas continuarão a usá-la, mesmo depois de um processo de tratamento. Nesse sentido, é preciso encontrar alternativas capazes de reduzir os prejuízos associados a este consumo.
Incentivar o dependente de crack a cuidar de si, sem que a condição para isso seja a interrupção total do uso da droga, é a estratégia central das ações de Redução de Danos à saúde do usuário. Ao reduzirem os problemas associados com o uso de drogas no âmbito social, econômico e de saúde, estas estratégias beneficiam o usuário, seus familiares e a própria comunidade. 
Segundo Tarcísio Andrade, psiquiatra e professor adjunto da Faculdade de Medicina da Bahia, as práticas de Redução de Danos são baseadas em princípios de pragmatismo e compreensão da diversidade. As ações são pragmáticas porque tratam como imprescindível a oferta de atendimento para todas as pessoas nos serviços de saúde, inclusive para aqueles que não querem ou não conseguem interromper o uso do crack. O esforço é pela preservação da vida. Do mesmo modo, as estratégias de redução de danos se caracterizam pela tolerância, pois evitam o julgamento moral sobre os comportamentos relacionados ao uso do crack e às práticas sexuais, assim como intervenções autoritárias e preconceituosas.
Oferecer estes serviços de abordagem, muitas vezes na própria rua e nos contextos de uso da droga, também pode evitar a exposição a outras situações de risco e aproximar o usuário das instituições de saúde, abrindo a possibilidade de que ele venha pedir ajuda quando necessário. Além disso, permite que o serviço de saúde possa acompanhá-lo de forma mais próxima. 
                                                                 
Iniciativas práticas
De acordo com o psiquiatra Marcelo Cruz, coordenador do Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas (Projad) e professor do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, as ações para redução dos riscos de contaminação por doenças entre usuários de drogas injetáveis e também durante a prática sexual marcaram o início das estratégias de Redução de Danos no País. Com o sucesso dessas ações, elas passaram a ser usadas também na prevenção de outras práticas de risco, tais como os problemas com drogas não injetáveis, como é o caso do crack nos dias de hoje. Ainda segundo o psiquiatra, a estratégia de redução de danos para usuários de crack prevê a distribuição de preservativos, a disponibilização de informações sobre os riscos de contaminação pelo compartilhamento de cachimbos e sobre os cuidados para a prática de sexo mais seguro. Assim, a atividade de abordagem dos usuários nos locais de uso da droga não é um fim em si, mas um serviço oferecido junto a muitos outros, com o objetivo geral de preservação da saúde.
Nesse processo de Redução Danos, ações preventivas, como a substituição de cachimbos improvisados por outros de melhor qualidade, evitam a contaminação do usuário por bactérias. "Oferecer cachimbos que não superaquecem ajuda a reduzir lesões bucais e infecções secundárias", afirma Francisco Inácio Bastos, psiquiatra e doutor em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Afastar o usuário dos locais de consumo e venda da droga também ajuda a minimizar os riscos. "É imprescindível recorrer à ajuda profissional para tentar diminuir a compulsão pelo uso da droga e para que o usuário tenha também outras formas de estímulo, seja com medicamentos ou através de outras ações", diz Bastos. Também é importante tentar regularizar a alimentação e o sono, o que reduz o risco de anemia e desnutrição e impede o agravamento de doenças físicas e mentais. “Todo comprometimento orgânico-nutricional é grave. Algumas pessoas, em decorrência do uso de substâncias psicoativas, deixam de se alimentar adequadamente. Particularmente na infância, isso impossibilita a absorção de vitaminas e pode causar danos ao sistema nervoso, às vezes irreversíveis”, afirma Antonio Nery Filho, professor e psiquiatra do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (CETAD) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
 Atenção psicossocial
Além das medidas práticas e paliativas, é importante valorizar e estimular a vivência das habilidades e potencialidades do usuário. "O usuário de crack é uma pessoa insegura que busca, através da droga, suprir esta angústia de pensar que não é capaz”, diz a psicóloga Raquel Barros, da ONG Lua Nova de Sorocaba (SP). Ajudar o dependente a reconstruir vínculos com a família e a sociedade também ajuda a diminuir os prejuízos do consumo do crack. “A droga só tem sentido na vida de um usuário a partir do momento em que ele não consegue estabelecer relações que o façam sentir-se como uma pessoa importante”, diz a psicóloga.